segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Usurpação à nossa essência


Há quem saiba exactamente como é física e psicologicamente. Há quem saiba exactamente os seus limites. Há quem saiba as suas fragilidades. Há quem saiba até, onde pode ir. No entanto, também temos o oposto. Afinal, que seria da vida sem os dois extremos? Oh, oh, nada!
Por vezes, temos situações na nossa vida tão surreais que nos questionamos se porventura estamos a ter a percepção exacta do que nos está a acontecer, ou do que nos aconteceu. São situações tão inimagináveis, que quase imploramos para que nos belisquem para sentirmos na pele. Como se o que aconteceu, não fosse o suficiente. Reles mortais que somos. Masoquistas no verdadeiro sentido da palavra. Pois olhamos para o espelho, e vemos reflectido, assim como fazemos questão de assistir de camarote o espectáculo. Espectáculo esse que consiste em termos uma pessoa na nossa vida que simplesmente gostava de ser como nós. Gostava de ter a nossa vida. Gostava de ter as nossas coisas. Gostava de ser exactamente como nós. Então, começa a sua encenação no palco principal, o da vida. Começa a criar rotinas como as nossas, tiques idênticos, maneira de falar, vestir, andar, estar e, até pensar. Às tantas, parece um clone. Há mais espectadores que vêem, e até avisam, mas estamos tão ofuscados com tamanha aberração, que nada vemos. Estonteante, sim! Entretanto, dura meses... ao ponto de ver no espaço da actriz objectos nossos, roubados. Fotos nossas espalhadas pelo quarto, que eram tiradas em grupo de amigos, convívio natural, ou simplesmente só porque sim. Pois dizia que éramos fotogénicas. Aí, ao ver aquele aparato, o sinal vermelho dispara. Contudo, só quando a nossa filha começa a ser o alvo também, é que foi o basta! Demorou, mas o espectáculo um dia tinha que terminar. Porque por mais que se tenha pena de alguém, por mais que sentimos que aquela pessoa não está bem e que nós, até conseguimos passar alguma tranquilidade, alegria com a nossa presença, não somos Deus! Não temos o poder de fazer com que a pessoa consiga ser quem ela desejava, que só por acaso, somos nós. Doentio, assustador, sim! Hoje, quando revejo essa peça fico arrepiada. O meu pensamento vai automaticamente para aqueles filmes de suspense, quiçá de terror. Sim de terror! Porque as obsessões existem. As patologias andam aí à solta e, não podemos ser ingénuos de pensar que só aos outros é que acontece. Porém, o contraditório se passa. Nós fomos ingénuos. Ingénuos no sentido de achar que a "sorte", não nos bate à porta duas vezes. Oh, que falha a nossa. E, eis que a vida nos pincelava com cores vivas, alegres, porém também, com algumas gravuras abstractas, outras intimistas, outras tantas minimalistas. Leque geral, harmonioso. (Será isto que desperte o interesse dos demais?)
Certo dia, voltamos ao espelho do passado. Sentados novamente no tal camarote de outrora e, assim por breves momentos, pensamos que estávamos a ter a dita sensação passada. A dita, que deixou sensações de arrepios. Deixou a mente às voltas, a pensar em mil e um cenário, no qual o catastrófico e inquietante marcavam uma presença absolutamente predominante. E, estávamos ali, novamente. Não pagámos bilhete, não. Não nos perguntaram sequer se queríamos assistir novamente, não. Foi-nos imposto. Mas, de uma maneira subtil, como sempre feito. Dentro desses moldes obviamente. A peça começa, o argumento, esse, era quase repetitivo. Só mudava a actriz. Afinal, há que dar uma lufada de ar fresco. A trama, consiste basicamente na usurpação à nossa essência. Sim, é assustador pensar só na frase. Quiçá sentir na pele. Esta actriz, era mais experiente que a anterior. Tinha um traquejo quase sobrenatural. Ao ponto, de sentirmos a energia sugada.  Chegávamos ao final esgotados. Tudo o que pretendia de nós, era idêntica à outra.  Noutras nuances, mas tudo filtrado, ia dar ao mesmo. Às tantas, pensávamos que era sina, karma e outras tantas hipóteses do género. Mais uma vez, nos vimos obrigados a ter uma atitude. Drástica. Pois com situações pragmáticas deste porte, só agindo drasticamente, é que se corta o mal pela raiz. Contudo, as perguntas são abruptamente assaltadas na nossa mente. Porquê nós? O que temos que salta à vista destas pessoas? Que tipo de pessoas são estas? Depois, nos questionamos vezes e vezes sem conta, que nada temos, que somos simplesmente mais um ser comum e igual a tantos outros. Mas o certo, é que estamos sujeitos a situações destas. Estamos vulneráveis para que sejamos alvo de dúbias patologias e, nos sentimos até injustiçados, porque estamos de boa fé, estamos de coração aberto, estamos somente nós, sem máscaras e subterfúgios, e somos abalroados com peças destas. Actrizes destas, da vida. O que nos apazigua  a mente e o coração, é que o tempo, esbate os sentimentos, as vivências e, mesmo que não nos esquecemos das peças da vida, ameniza as lembranças, assim como os sentimentos. Hoje, quando olhamos novamente para o espelho, e nos sentamos no camarote para reviver novamente estas e outras peças, chegamos à conclusão, que efectivamente este argumento, estará sempre patente. Porque mesmo que outras peças ao longo dos tempos darão o ar da sua graça, esta que já duplamente reinou no palco da nossa vida, faz questão de vincar a sua posição. Faz questão de nos dizer que faz parte de nós. Com outras personagens, outros argumentos, mas o objectivo é estar no palco e não na gaveta. E, a prova disso, é que hoje em dia, estamos a viver outra situação. Mais calma, mais abstracta,  mas estamos a viver. Novamente a história da usurpação à nossa essência. E nós perguntamos? Como é querer ser outra pessoa? Como é imaginarmos vivermos a vida de outro alguém? Como é fazer coisas tresloucadas em prol dessa obsessão? E tudo porquê? Porque não gostamos de nós? Ou porque é aquela pessoa que nos enche totalmente as medidas? Porventura, não nos passa pela mente que todos somos simplesmente comuns mortais? Com defeitos, qualidades, mas meros comuns mortais? E, estupidamente concluo o quão saudável é a diferença que está patente em cada um de nós! Mas, será que é assim tão difícil atingir tal raciocínio?

20 comentários:

  1. Achas que algum macho que se preze consegue ler este texto depois de ver a imagem que o encima? Beijoca!

    ResponderEliminar
  2. Faz confusão alguém querer ser outro alguém. Querer substituir alguém e permitir que ela própria deixar deixe de existir.
    Há pessoas que absorvem os tiques, expressões, gestos, palavras, etc, de outros. Mas onde fica a nossa essência, a essência de cada um?! Aquilo que nos caracteriza como seres individuais e únicos?

    Gostei do texto! :)

    beijo
    Sutra
    P.S.1: Gostei muito do texto! Quando é que pensas em escrever um livro?! :P

    P.S.2: Tive muita dificuldade em me concentrar no texto!! :D

    ResponderEliminar
  3. A "usurpação da nossa essência" nos termos em que colocas manifesta por parte da "usurpadora", antes de mais, um desequilíbrio emocional que resulta da sua incapacidade de criar a sua própria identidade.

    Para quem é "alvo" provoca, inevitavelmente, apreensão.

    Beijo

    ResponderEliminar
  4. Essência, sem obviamente quereres atrais esse tipo de atenção e usurpação, infelizmente. Precisas de criar um bloqueio em quem se aproxima de ti logo de inicio, tentar perceber as suas verdadeiras e reais intenções, se bem que é complicado porque o que não falta para ai é gente dissimulada e actrizes dignas de ganhar um óscar por certas encenações, de qualquer forma, protege-te e à Zunfnha dessas energias controladoras e absorventes. Da forma que entenderes e acreditares mas fá-lo!
    Beijocas nossas ;)

    ResponderEliminar
  5. Perde-se a essência ao querer ser outra pessoa...nada disso é saudável!!

    ResponderEliminar
  6. Para muitas pessoas é difícil chegar a esse tipo de conclusão...

    ResponderEliminar
  7. E não falta por aí gente assim Essência.... sentem-se pequenos e insatisfeitos no seu papel, então passam a vida a parasitar e copiar o eu de outrem.

    ResponderEliminar
  8. São essas diferenças, as nossas individualidades, a componente idiossincrática de cada pessoa que nos torna únicos e interessantes. Temos de ser fieis à nossa essência.Sempre! ;)
    Beijinho e boa semana

    ResponderEliminar
  9. difícil não é mas é complicado. e isso de nao gostarmos de nós é grave
    kis .=)

    ResponderEliminar
  10. Pessoas obcecadas são muito estranhas, tanto a imitar os outros como no resto.

    ResponderEliminar
  11. Olá. Venho agradecer ao teu comentário e, claro, dar uma vista de olhos por aqui. Há muito que já não vinha aqui para estas bandas! Hum. Bem, filmes de terror. Por vezes vemo-nos na situação de "se eu fosse ele, não fazia aquilo ou..." Estranho não é? Mas será que o faríamos mesmo? Numa acção de terror? O importante é nos sentir-mos realizados, felizes, com a nossa essência!

    ResponderEliminar
  12. Além da obsessão, há a inveja.

    :) desejo

    ResponderEliminar
  13. Não percebo como algumas pessoas não conseguem defenir a sua própria identidade.

    ResponderEliminar
  14. Não percebo como algumas pessoas não conseguem defenir a sua própria identidade.

    ResponderEliminar
  15. Existem várias formas de se querer dominar outra pessoa. Esta é uma delas.

    ResponderEliminar
  16. bom parece que distraiste os homens com a imagem e não com o texto!!!!de acordo com o comentário do Rafeiro!
    Essência a busca do nosso eu é uma constante.....
    :)
    bjs

    ResponderEliminar
  17. Risos... este tema não tem piada alguma, mas pelos comentários de alguns senhores, noto que a imagem foi uma péssima ideia. Tirou toda e qualquer credibilidade ao post! Oh céus!... Homens!!!

    Quanto aos comentários direccionados ao tema, li atentamente e pude constatar que vocês captaram perfeitamente. Obrigada pelas vossas perspectivas e não só. ;)

    Kiss

    ResponderEliminar

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo".♥ - Fernando Pessoa

A essência que queres partilhar comigo é?...