segunda-feira, 9 de julho de 2012

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Abro a janela, olho lá para fora e noto um tempo nublado. Um tempo que ameaça chuva.
Chove abundantemente. Chove, incessantemente, como se o tempo quisesse lavar a alma do universo.
Cai neve. Geada fria. Geada que queima as plantas que querem dar o ar das suas graças nos jardins, nos canteiros vizinhos. Nem chegam a partilhar a harmonia com a humanidade. Nem chegam a embelezar a jarra da menina sonhadora que despeja todo o sentimentalismo num molho de Margaridas.
Vento. Num repente vem um vento frio, seco que entranha a alma e entorpece os movimentos. Como se os pés estivessem colados ao chão, mas a mente, essa, deambula... deambula freneticamente. Constantemente num turbilhão angustiante. E gira, gira, e olho à volta, e vejo tudo do avesso. Mas quando a agitação acalma, dou-me conta que a janela não está do avesso. O mundo, não está do avesso, não. Porque são os meus olhos que estão a deturpar, pois é mais fácil aceitar que o que tenho diante de mim, apesar de ser uma calamidade, seja real, do que utópica. Ser fruto da minha imaginação fértil. Agito a cabeça, como se quisesse arrancá-la do meu corpo. Como se ela estivesse podre. Como se ela estivesse doente. E está! Assim como o meu corpo está a ficar contaminado. Contaminado pela angustia, pela tristeza que me definha a alma, dia-após-dia... tenho consciência do meu estado de degradação, mas as forças, estão a se esvair, como se de uma ferida enorme se tratasse. E é uma ferida, imensa. Uma ferida que por mais que se ande à volta dela a curar, não cicatriza. E, nas mudanças de tempo, ressente-se. E faz se sentir quando esboço um esgar de dor. Quando contorço o meu corpo para tentar amenizar esta dor, agoniante...
Mantenho-me imóvel na janela. Os meus olhos vivem intensamente todas as mudanças climatéricas. Mas é só isso, vejo. Sinto. De repente, o Sol fica imponente, como quisesse gritar aos quatro ventos que é o senhor do tempo. Altivo, faz-se anunciar com raios quentes. Com a melodia dos pássaros que pousam na árvore vizinha. Fico feliz. Os meus olhos brilham. O meu rosto ilumina-se juntamente com aquela luz natural. As lágrimas, inevitavelmente escorrem pela minha face. Choro... choro... num misto de emoções por contemplar tamanha transformação e por estar ciente que, não mexi um dedo. As mudanças se deram e não precisaram de mim para nada! Senti-me incapaz de reagir a qualquer estimulo vindo de fora. Vindo de dentro de mim. Senti-me inútil. Sinto-me inútil. Fecho a janela exausta. Já não tenho forças sequer de ir para a cama e dar tréguas a este corpo-farrapo. A esta mente poluída de dor. Preciso desligar o botão, mas não consigo ter acesso. E dava tudo para que ao menos conseguisse desligá-lo. Só isso.

15 comentários:

  1. isto foi profundo....

    O sol já espreita little girl =)

    Paulinha

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  2. Intenso... muito intenso!

    beijo
    Sutra
    P.S.: "De que vale o Sol brilhar, se lhe fechamos a janela?!"

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  3. E viva a vida sentida de uma forma tão profunda. É bom quando é assim, faz-nos sentir vivos de uma forma ou de outra.

    The sun always shines back someday :)

    Bjs carinhosos xxx

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  4. coisas profundas se passam desse lado :O
    Um beijinho na alma*

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  5. olá. como é que te estás a sentir? quanto a mim, apanhei um pouco de chuva na sexta-feira, mas não muito forte e de resto tem estado muito calor. saudades do vento da figueira da foz... beijos e as melhoras. boa semana

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  6. Oh... :( fiquei triste Essência. Um beijinho.

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  7. Há fases da nossa vida em que o sol deixa de espreitar, e mesmo quando olhamos para o céu e parece que vai aparecer, ele volta a fugir, e a chuva e as nuvéns tomam o seu lugar. São fases que parecem ser infinitas... mas acabam. Um dia acabam. E quando esse dia chegar, tu nem vais dar conta que chegou.
    Se precisares de falar, eu também já tive dias de muitas chuvas, meses seguidos até.
    :) Beijinhos!*

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  8. Espero que esteja tudo bem...
    Força!

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  9. Amei o sentimento das palavras
    melhoras e melhores dias virao
    kis :=)

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  10. Um texto introspectivo deambulante e inquieto que se lê sem que nos possamos distanciar dele.
    Um texto bem construído que nos prende do princípio ao fim.
    Beijinhos,

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  11. Lindo...
    E sabes bem que depois das núvens cinzentas vem sempre o sol para nos alegrar!
    Miminho / abracinho / beijinho!

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